segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Passaporte Biológico.



Deslocar-se é uma virtude. Ás viagens alargam o nosso horizonte , apartir delas , abdicamos da perspectiva vertical da vida e adoptamos um prisma horizontal , adquirido graças a partilha de informações e emoções.

Foi neste contexto que o jovem Hélio Almeida , decidiu ,  procurar ,  pelos serviços de migração e estrangeiro , com o intuito de requer a emissão de um passaporte , para materializar  o seu sonho , o de tornar-se em um viajante emérito e descobrir os quatro cantos da sua região.

Hélio Almeida , deslocou-se ao edifício que alberga os serviços de migração e estrangeiro , e ao chegar ,  deparou-se com uma enorme azáfama , era tal a enchente e a movimentação de pessoas e bens ,  que Hélio Almeida por instantes pensou em declinar a sua pretensão.

O edifício que domiciliava os serviços de migração e estrangeiro , localizava-se na zona oeste da pacata cidade de Omufilu. Era um serviço relativamente novo na localidade , institucionalizado no âmbito da estabilidade política que se vivia na região , a mercê do fim do conflito militar , o que influiu na extinção dos postos de controlo e fronteiras , permitindo a circulação incondicional e inter-regional de pessoas e bens.

O edifício ,  apresentava uma arquitectura moderna  com traços orientais. Dividia-se  em vários compartimentos úteis , entre os quais uma recepção com atendimento personalizado , uma ampla sala de reuniões , um refeitório condigno que servia aos funcionários e uma pequena biblioteca anexa à sala de espera dos utentes.

A demanda começa muito cedo. Logo pela manhã , formavam-se filas de espera  de pessoas que pretendia adquirir o passaporte , para finalmente deslocar-se ao encontro de seus ente-queridos que outrora foram barricados doutro lado das fronteiras por questões políticas.

Outros  ainda , como Hélio Almeida , pretendia apenas adquirir o passaporte , para deslocarem-se à outras localidades da região ,  para explora-las culturalmente.  Hélio Almeida , com os seus 24 anos , era um jovem bastante impaciente e tinha algumas dificuldades em aguentar-se em pé , nas longíssimas filas de espera para o atendimento ao público.

Para entreter à espera , Hélio Almeida , decidiu , deslocar-se à biblioteca do edifício , que ficava a dois passos da sala de espera onde se formavam as longas filas de espera.  Hélio Almeida , não tinha o hábito de leitura , apesar de pertencer a uma família com alguma pujança económica na localidade , jamais fora um leitor assíduo.

Os seus progenitores ,  eram detentores de uma pequena fortuna fortuita , adquirida nas circunstâncias da guerra ,  seu pai fora ajudante de motorista numa fazenda de um reputado senhor colonial.  No período de transição política , ele , o pai de Hélio Almeida , herdara uma pequena camioneta de seu antigo patrão , que posteriormente transformou-se no meio de transporte por excelência de todos aqueles que quisessem desloca-se de Omufilu para outras localidades da região.

Havia em Omufilu , outras camionetas que transportavam pessoas e bens , todavia , a camioneta do senhor Leonel Almeida , pai de Hélio Almeida , gozava de imunidades nos postos de controle , graças a reputação de seu antigo patrão ,  esse facto ,  agradava os seus passageiros , pois viam-se livres de uma inquisição burocrática por parte dos agentes de autoridade que fiscalizavam as estradas e caminhos.  

Leonel Almeida , era um senhor bastante pragmático , com uma visão matemática e mercantilista da vida , para ele , tudo se resumia à negócios e contas , fora essa a educação que dera aos seus 8 filhos , nunca lera um livro , detinha um vocabulário prático e elementar e bastava-lhe os anos de experiência e os conhecimentos que adquirira do senso comum , que ele chamava de sabedoria popular.  

Com este pano de fundo , Hélio Almeida nunca se tivera interessado por livros , abandonou a escola muito cedo e dedicou-se a trabalhar com o pai e  pretendia agora ,  alargar a sua independência financeira , explorando culturalmente às outras localidades da região ,  para futuros negócios.

Foi o seu primeiro contacto com uma biblioteca.  A biblioteca do edifício dos serviços de migração e estrangeiro , encontrava-se confinada a um espaço de sensivelmente 6 metros quadrados , continha 3 prateleiras devidamente preenchidas por literatura diversa , prosa e poesia e algumas mesas com cadeiras confortantes para leitura. Hélio Almeida ,  depois de alguma observação aos livros , escolheu o que mais lhe parecia interessante com gravuras na capa e um título deveras sugestivo « A Nossa Região »

Assim de forma inconsciente , Hélio Almeida foi explorando o livro e ficou perplexo com a pertinência do conteúdo do mesmo. Hélio Almeida , não sabia que nós os humanos  não escolhemos os livros são os livros que nos escolhem.  Foi explorando a obra e depois de algumas horas de leitura , já de forma consciente foi absorvendo o conteúdo da mesma.

Hélio Almeida , surpreendeu-se pela positiva de tal forma , que se esquecera de reintegrar-se na fila de espera para o atendimento para requisição do passaporte e deu por ele a ser convidado à abandonar o edifico , pois se esgotara o tempo de atendimento ao público.

A obra  « A Nossa Região » fora escrita por um ex-colono , agrónomo de profissão , que tivera feito um períplo por toda às regiões que circundavam a localidade de Omufilu , descrevendo-as culturalmente de forma muito elevada e profunda.  Dividia-se em vários capítulos , repartidos por 3 volumes e já se encontrava na sua 5ª edição.  

No dia seguinte , pasme-se , Hélio Almeida , foi o primeiro da fila de espera , muito antes da abertura do edifício , ali encontrava-se Hélio Almeida , ávido de continuar a sua prospeção no livro « A Nossa Região » esquecendo-se completamente da pretensão de requerer a emissão do seu passaporte.

Hélio Almeida , que ate à data , não lera obra nenhuma , simplesmente devorou os 3 volumes  da obra do agrónomo Baltazar Caetano « A Nossa Região »  foram dias à fio de muito leitura na biblioteca dos serviços de migração e estrangeiro.

Volvidos alguns dias , Hélio Almeida , recolhera do livro , todo o manancial de informações de que necessitava para conhecer culturalmente às localidades da sua região , adquiriu da obra , informações privilegiadas , sobre quais às zonas por explorar e prosperar por toda a região ,  e de forma meio instintiva , Hélio Almeida , conclui , que a obra « A Nossa Região » era o passaporte de que realmente necessitava.

Deste modo , 17 dias depois , Hélio Almeida despedia-se da biblioteca do edifício dos serviços de migração e estrangeiro , convicto de adquirira o seu verdadeiro passaporte biológico.

O livro é um passaporte biológico , com ele , extinguimos às distancias e alcançamos uma sabedoria milenar.  Os livros são extremamentes ricos , a sua fortuna , chama-se: Lucidez.

Mardilénio Hifewa ( Soba L )
Xangongo , 2012

2 comentários:

  1. PARA SER SINCERO AINDA NAO LI O NEW POST, MAIS JA COPIEI PRO WORD, PRA MAIS CALMO ALIMENTAR O INTELECTO....MAIS O QUE ME TROSSE AQUI FOI O TEU PREMATURO E ENEXPLICAVEL DESAPARECIMENTO DO ONIBUS CONDUZIDO PELO MARK ZUKENBERG, DEIXANDO NOS EM PROFUNDO DESAMPARO....NAO SEI O QUE ESTEVE NA ORIGEM DA DECISAO, MAIS QUERO QUE SAIBAS QUE ESTAS A FAZER FALTA EM MUITOS MANOS!!!! SAUDE Soba L...
    Gil Marcolino

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  2. Grande Gil. Obrigado pela atenção mano. Sempre a considerar.
    Relativamente ao Face , Encerrei a conta por questões de privacidade e gestão dos textos.

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